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Como proteger a produção agropecuária e garantir renda no mundo financeiro


O produtor rural Gelson Sbardelotto, de 35 anos, precisava quitar algumas parcelas do financiamento de custeio de plantio do grupo agropecuário da família, em Dois Vizinhos, na região Sudoeste do Paraná. Em meados de julho, o preço da soja estava bom, mas como o mercado está aquecido, o agricultor ponderou que a tendência era de que o produto continuasse se valorizando. Ele optou, então, por uma estratégia: vendeu 2 mil sacas no mercado físico, pagou as dívidas e, paralelamente, fez contratos de venda no mercado futuro de soja, que estavam com cotação de US$ 13,40 por bushel. Em agosto, 20 dias depois, as cotações alcançavam US$ 13,70 por bushel. Ou seja, a operação permitiu que ele quitasse as parcelas do financiamento (com a venda física) e, ao mesmo tempo, participasse das altas no mercado.

“Já tivemos um lucrinho. Essas operações são um ótimo instrumento para o produtor rural. Se preciso de dinheiro para custeio, vendo [a soja ou o milho] no mercado físico e vou para o mercado futuro”, exemplifica Sbardelotto.

Há dez anos o produtor utiliza dos instrumentais do mercado financeiro para se valer de oscilações de preço: tanto para se proteger de quedas, quanto para aproveitar de altas. Assim como ele, cada vez mais as aplicações em bolsa têm feito parte da rotina de agricultores, como estratégia para garantir renda.

Na prática

Pode parecer um pouco complexo a um primeiro olhar, mas, na prática, o bicho não é tão feio quanto parece. Operando em bolsa (no Brasil, na B3), o mercado futuro corresponde a negociações em que alguém se compromete a comprar ou vender um ativo (uma commodity, por exemplo) em uma data posterior, a preço pré-determinado. Os contratos são padronizados pela bolsa (ou seja, cada lote tem um volume específico, por exemplo) e as cotações oscilam conforme a dinâmica do mercado. Nessa modalidade, o produtor não precisa fazer a entrega física do produto: a liquidação é financeira, ou seja, o investidor paga ou recebe de acordo com as cotações na data do encerramento do contrato.

“O produtor tem que enxergar esse mercado como mais uma ferramenta de gestão da propriedade. Precisa ficar atento aos movimentos de bolsa e ao seu custo de produção. Dessa forma, ele consegue proteger o seu negócio e garantir rentabilidade”, diz Luiz Eliezer Ferreira, do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP/SENAR-PR.

Como fez Sbardelotto, o produtor pode recorrer ao mercado futuro quando tem elementos para crer que os preços de determinada commodity vão subir, valendo-se das altas das cotações. Por outro lado, o agropecuarista também pode usar esse instrumento para se proteger de quedas, fazendo contratos de venda futura, por um preço que cubra seus custos de produção e lhe garanta certa margem – fazendo o chamado hedge.

Ainda parece difícil? Vamos a um exemplo. Imagine um produtor de milho que, na época do plantio, tem custo de produção de R$ 64 por saca. Para garantir renda, ele vai à bolsa e faz contrato de compra de milho para dali a seis meses, a R$ 85 por saca. Se na data de liquidação do contrato a cotação estiver abaixo deste valor – a R$ 80, por exemplo –, ele se protegeu da queda, travando posição em R$ 85. Se o mercado subir, no entanto, ele não participa da variação positiva. Na prática, a estratégia funciona como uma espécie de seguro de queda. “Como a liquidação do contrato é financeira, o produtor pega esse dinheiro na mão e vende sua produção no mercado físico”, observa Ferreira.

Cotações

Para ficar de olho no mercado, o produtor pode acompanhar o sobe e desce das commodities em tempo real no site da B3 (www.b3.com.br). Desde agosto, o Sistema FAEP/SENAR-PR disponibiliza as cotações em seu site e em seu aplicativo. A variação dos preços aferida ao fim de cada pregão, seja de crédito ou de débito, devem ser liquidadas diariamente – o chamado ajuste diário. Dessa forma, para operar na bolsa, o investidor deve abrir uma conta com o equivalente a 30% do valor integral do contrato. Assim, se o ativo que ele detém tiver valorização naquele dia, o dinheiro entra na conta. Se a ação se desvalorizar, esse fundo é usado para cobrir a diferença.

Outro ponto é que, como os contratos são padronizados, partem de volumes pré-definidos. No caso do milho e da soja, por exemplo, cada contrato – ou lote – corresponde a 450 sacas de 60 quilos. Para o café, cada contrato equivale a 100 sacas de 60 quilos, e para o açúcar, 508 sacas de 50 quilos. Já o boi gordo tem cada contrato fixado em 330 arrobas. Apesar de serem volumes consideráveis, esses pontos de partida permitem que mesmo produtores médios ou ainda de pequeno porte possam utilizar esses instrumentais como estratégia de negócio.

Sbardelotto, mesmo, começou aos poucos, até para entender os mecanismos das aplicações. Ele ressalta que o produtor que recorrer ao mercado futuro deve estar sempre ligado às movimentações das cotações, mas que a prática pode muito bem ser conciliada com as atividades de gestão da propriedade. “Quando comecei, eu assisti a uma palestra e fiquei interessado. Comecei movimentando pouco: um lotinho, dois lotinhos. Depois, conforme fui entendendo, ganhando confiança e aumentando as operações”, relembra o produtor. “Falando, parece difícil. Mas na prática o produtor vê que não é um bicho de sete cabeças”, acrescenta.

Mercado de opções

Outra alternativa que pode ser usada pelo produtor tanto para proteção quanto para garantir renda é o mercado de opções. Nessa modalidade, o investidor compra uma espécie de título que lhe dá o direito de comprar ou de vender determinado ativo no futuro, a um preço pré-determinado.

Por exemplo, se o produtor rural quer garantir que vai vender seu milho a R$ 99 a saca em janeiro de 2022, ele adquire uma put (direito de venda) estabelecendo esse preço. Quando chegar o vencimento do contrato, ele garante esse valor, ainda que a cotação caia abaixo desse patamar. Vale ressaltar que é uma opção, não uma obrigatoriedade. Assim, se a saca de milho estiver acima dos R$ 99, ele não precisa exercer o direito de venda pelo preço pré-determinado.

Por outro lado, se um pecuarista, por exemplo, quiser se proteger de altas no preço do milho, ele pode fazer uma call (direito de compra).

Vamos a um caso prático: para manter seu custo de produção em um nível razoável, um bovinocultor precisa adquirir a saca milho a R$ 92, em janeiro de 2022. Ele estabelece esse valor no contrato da call. No vencimento, ele tem o direito de comprar o produto a esse preço, ainda que as cotações no mercado físico estejam mais elevadas.

Assim como no mercado futuro, as opções não envolvem entrega física de mercadoria. Ou seja, os contratos são liquidados financeiramente. Além disso, o mercado de opções oferece tanto a possibilidade de investimento em bolsa (com contratos padronizados), quanto em negociações de balcão (sem padronização).

Mercado em expansão exige conhecimento prévio

Para que o produtor rural comece a lançar mão desses instrumentais, o ideal é procurar uma corretora especializada. E na visão de quem atua nessas modalidades de operação financeiras, cada vez mais os mercados futuro e de opções têm sido usados por agropecuaristas como forma de ampliar rendimentos e/ou se precaver de oscilações. Analista de mercado e sócio da Granoeste Investimentos, Robson Polotto atribui o aumento da procura à maior difusão de informações, às perspectivas positivas em que essas aplicações implicam e à mudança gradativa do perfil dos produtores rurais, que estão cada vez mais afinados às novas tecnologias.

“É um mercado que tem crescido ano a ano. Hoje, o agricultor e o pecuarista estão mais tecnificados, usando as informações a seu favor. Com o celular na mão, têm acesso a esse mercado. E quando o produtor entende, ele percebe que pode aproveitar a correlação entre a bolsa e o mercado físico e usar isso a seu favor”, diz Polotto.

Hoje, a Granoeste tem como clientes produtores rurais do Paraná, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso e Santa Catarina. Segundo Polotto, as estratégias de operação são traçadas de forma conjunta, entre o cliente e a agência. “Na maioria dos casos, o cliente já sabe o que precisa: quer se proteger contra baixas ou contra altas. A gente senta com eles e monta uma estratégia. Aí, ele só precisa ter uma conta em um banco oficial”, conta.

Polotto ressalta que o mercado é acessível não só a grandes produtores, mas a agropecuaristas que conduzam propriedades de pequeno ou médio porte. Mesmo com os preços dos grãos e da arroba nas alturas, o especialista destaca que é imprescindível que o homem do campo fique de olho no vai e vem das cotações. “Quem acha que não precisa fazer nada porque o mercado está bom, pode se surpreender. O agropecuarista tem que usar as ferramentas para garantir um preço mínimo, para garantir seus custos e continuar produzindo com sustentabilidade financeira. Aumentar seus lucros não faz mal para ninguém”, afirma.

Luiz Eliezer Ferreira, do DTE do Sistema FAEP/ SENAR-PR, no entanto, destaca que o produtor deve procurar conhecer bem os mecanismos do mercado, antes de começar a operar. Ele recomenda que o investidor comece aplicando volumes pequenos, com cautela, para aprender os meandros de cada modalidade. “São instrumentos muito interessantes, mas que não admite aventureiros. Antes de entrar, o produtor deve buscar informações, conversar com um corretor especializado. Como todo produto financeiro, tem um risco”, orientou.

Mercado futuro

Os contratos negociados no mercado futuro estabelecem uma obrigatoriedade de comprar ou vender certa quantidade de um ativo a um preço pré-estabelecido, com liquidação em data futura. Todos os contratos são padronizados e operacionalizados em bolsa (no caso do Brasil, na B3).

Exemplo:

A saca de milho está em R$ 100 no mercado físico.

Um agricultor quer garantir que vai obter esse preço em janeiro de 2022, quando ele for colher a safra.

Ele emite contratos de venda para janeiro de 2022, a R$ 100 – valor que ele vai receber quando o contrato for liquidado.

Se o preço cair, ele se protegeu da queda – ou seja, faz o chamado hedge. Mas se o preço subir, ele não participa da alta.

Características:

CAFÉ – Volume do contrato: 100 sacas; Cotação: US$/saca

BOI GORDO – Volume do contrato: 330 arrobas; Cotação: R$/arroba

SOJA – Volume do contrato: 450 sacas; Cotação: US$/bushel

AÇÚCAR – Volume do contrato: 508 sacas; Cotação: R$/saca

MILHO – Volume do contrato: 450 sacas; Cotação: R$/saca

ETANOL – Volume do contrato: 30 mil litros; Cotação: R$/m³

Mercado de opções

O investidor compra o direito de comprar ou de vender suas ações no futuro, pelo mesmo preço inscrito no mercado no momento da aquisição. Modalidades:

É o direito de compra

O investidor que adquire uma call tem o direito de comprar determinada ação pelo preço de contrato inscrito no momento da aquisição. Assim, até o prazo de vencimento do contrato, ele pode exercer a compra pelo preço previsto, se protegendo de altas.

É o direito de venda

Dá ao proprietário a opção de vender suas ações pelo preço estipulado durante a assinatura do contrato. Assim, o detentor da put pode vender seus papéis, ainda que eles se desvalorizem, se protegendo de quedas.

Características:

PRODUTOS NEGOCIADOS – Quaisquer. Negociados em bolsa ou em balcão

AQUISIÇÃO – Quem compra a opção (call ou put) paga um prêmio ao lançador dos papéis

CONTRATOS NÃO PADRONIZADOS – Negociantes estabelecem os parâmetros (volume e preço)

LIQUIDAÇÃO FINANCEIRA – O produtor não precisa fazer entrega física do produto

Fonte: CNA Brasil

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Sisb. Entre falsas promessas e atrasos, apenas duas agroindústrias são reabilitadas

Alegrete paga pela negligência oficial

A narrativa oficial divulgada pela Prefeitura de Alegrete tenta vender como “conquista” aquilo que, na realidade, é apenas a correção de uma falha grave de gestão.

Desde novembro de 2025, nove agroindústrias do município foram desabilitadas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) justamente porque o Executivo municipal não cumpriu os trâmites legais exigidos para manter a certificação do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI).

Durante estes meses, produtores locais ficaram à mercê de informações desencontradas e até falsas, enquanto a economia rural sofria com a paralisação de atividades que dependem diretamente do selo de inspeção para comercializar em escala nacional.

O prejuízo não foi apenas financeiro: a credibilidade do setor agroindustrial de Alegrete foi colocada em xeque, afetando trabalhadores, consumidores e a imagem do município.

Somente agora, após a Prefeitura finalmente se enquadrar nas normas legais, o MAPA autorizou a reabilitação de duas agroindústrias — o Matadouro São Jorge e a Agroindústria Super Ícaro. É importante destacar que essa decisão não representa uma vitória política, mas sim um reparo tardio a um problema criado pela própria administração municipal.

O discurso triunfalista da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural, ao anunciar a retomada da certificação, ignora o fato de que a desabilitação inicial foi consequência direta da negligência administrativa.

O que se apresenta como “nova fase” deveria ser encarado como um alerta: sem responsabilidade e transparência, o setor produtivo continuará vulnerável a decisões equivocadas e à falta de rigor no cumprimento das exigências legais.

Em resumo, a reabilitação de apenas duas agroindústrias não apaga os meses de prejuízo e insegurança enfrentados pelo setor. Alegrete precisa menos de discursos comemorativos e mais de gestão eficiente, capaz de garantir estabilidade e confiança para quem produz e para quem consome.

 

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Produtores de Alegrete enfrentam prejuízos crescentes com ataques de javalis

A presença descontrolada de javalis tem se tornado uma ameaça constante à produção agropecuária em Alegrete, na região da Campanha Gaúcha. Além de devastarem lavouras, os animais silvestres agora avançam sobre criações de ovelhas e outros animais de pequeno porte, gerando prejuízos incalculáveis aos produtores locais.

João Pacheco, produtor com propriedades nas localidades de Pai Passo e Rincão de São Miguel, relata que os ataques são frequentes e devastadores. “Deixei de criar cordeiros no Pai Passo porque não ficava nenhum vivo. É lamentável e acarreta prejuízos a quem produz e trabalha”, afirma. Segundo ele, nem mesmo os pequenos produtores são poupados, e as perdas nas lavouras são difíceis de mensurar.

Apesar de possuir licença do Exército e do Ibama para realizar a caça controlada dos javalis, Pacheco denuncia a burocracia e os altos custos envolvidos na aquisição de armas e munições. Enquanto isso, os animais continuam se proliferando e atacando rebanhos e plantações. “Eles comem cordeiros, terneiros, destroem lavouras e ninguém faz nada para conter essa procriação”, lamenta.

Uma das estratégias adotadas por produtores da região tem sido a instalação de gaiolas para captura dos javalis. No entanto, a eficácia das armadilhas é limitada. “Às vezes demora meses para que algum seja atraído e preso”, explica Pacheco.

Além dos prejuízos econômicos, há também impactos ambientais. Os javalis têm atacado ninhos de aves que se reproduzem no chão, como o quero-quero e corujas, colocando em risco a biodiversidade local. “Isso poderá acarretar inclusive a extinção de aves e pequenos animais silvestres”, alerta o produtor.

Pacheco também critica a falta de compreensão por parte da sociedade sobre o trabalho dos agricultores. “Muitos acham que destruímos, mas estamos preservando cada vez mais. Seguimos as leis e precisamos das terras”, defende.

A situação em Alegrete evidencia a urgência de políticas públicas mais eficazes para o controle da população de javalis e o apoio aos produtores que enfrentam essa ameaça diariamente.

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O sábado de calor atrai grande público no primeiro dia da Expointer

O termômetro já batia os 35 graus em torno das 15h deste sábado (30/8), na área central do Parque Estadual de Exposições Assis Brasil.

No local, havia movimento frenético do público que se dividia entre uma grande variedade de atrações da Expointer, como artesanato, programação de shows, degustação, maquinário agrícola, Freio de Ouro, exposições e julgamento de animais, banho de leite, Pavilhão da Agricultura Familar, gastronomia, Pavilhão dos Pequenos Animais, parque de diversões, palestras e oficinas.

Natural de Esteio, Juliano Fetter, proprietário de academia, veio com a família – cunhado, irmão, esposa, avó e a pequena Luísa, agarrada no colo do pai. “Ela veio logo pra ver os animais. Era uma coisa que a gente fazia muito quando eu era criança, com a minha família. E agora eu aproveitei esse final de semana”, afirmou Juliano. “Num lugar onde a gente se criou quando era mais novo. Vínhamos todos os anos pra cá. É bom poder lembrar um pouco também disso”, contou.
Prestigiando a produção e a pujança do RS na feira

Um pouco mais adiante, no Pavilhão Internacional, a Feira de Azeites mostrava produtores de diferentes regiões do Estado.

O casal Paulo Corrêa Rodrigues, contador, e Iris Amaral Rodrigues, aposentada, foi atraído, em especial, pelo azeite de noz-pecã. “Na verdade, eu sou natural de Cachoeira do Sul e por lá se fala muito em noz-pecã”, contou Paulo. “Na feira, eu gosto de ver os animais bonitos”, disse Iris.

“Em primeiro lugar, minha origem vem no campo. Em segundo, isso aqui é uma demonstração da produção e da pujança do Brasil e, principalmente, do nosso Estado, né? Acho que toda pessoa que sai do campo tem esse sonho de que, mesmo se não tiver alguma coisa, que possa olhar e conhecer. Tem que prestigiar isso”, finalizou Paulo.

Expointer 2025

A 48ª Expointer segue até 7 de setembro no Parque Estadual de Exposições Assis Brasil, em Esteio, reunindo mais de 800 eventos e atrações ligadas ao agronegócio. A previsão do tempo para domingo (31/8) é de um dia parcialmente nublado, com temperaturas próximas dos 30 graus.

Texto: Rodrigo Martins/Ascom Espointer
Edição: Camila Cargnelutti/Ascom Expointer

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