Aquele seria o meu dia

Quando eu fui convidado para dar aulas de português para uma turma de estrangeiros, eu saltei na oportunidade. Seria a melhor experiência de mundo que eu poderia ter sem viajar, pensei. E como um dos meus objetivos é justamente conhecer outros países, esse seria um excelente exercício.

Sempre gostei de estudar outras línguas, e adoraria a chance de praticar meu italiano horrível com algum aluno de intercâmbio. Seria uma situação de troca, onde todos aprenderiam um pouquinho da cultura do outro. Quase uma utopia cultural, eu imaginava com brilho nos olhos.

Passei o resto da semana imaginando como seria, o que eu iria falar, como criaria uma aula interessante e clara para todos. Por ter pouquíssima experiência em sala de aula, sabia que ficaria nervoso, nada mais natural.

Na noite anterior, matutei tanto a ideia que acabei tendo até um pesadelo sobre isso. Nele, eu me atrapalhava nas explicações e causaria um incidente internacional. Até pude ver a cara do Donald Trump dizendo “Está demitido” naquela voz esquisita.

Achei que seria um sinal quando o dia da aula amanheceu cinzento. Era um agouro, um azar danado. No momento que saí de casa, entre as duas quadras que tenho de caminhar até a faculdade, uma chuva torrencial despencou, com o impacto de tijolos.

Cheguei ensopado até os ossos. Isso já me deixou nervoso por achar que seria motivo de piada entre os alunos. Como se diz “olha que professor otário” em alemão? Eu iria descobrir.

Entrei na sala. Completamente vazia. Olhei pelo corredor, não havia ninguém aguardando ou nada assim. Esperei por alguns minutos, mas nenhuma viva alma apareceu.

Fui ao encontro da monitora do projeto. Ela explicou calmamente que a chuva as vezes assusta os alunos. Eles já não possuem nenhum conhecimento sobre a cidade, e quando chove, o caos é ainda pior.

Voltei para casa naquela tal melancolia, as anotações se desmanchando nos bolsos. Aparentemente eu teria de esperar outra semana para praticar meu Italiano horrível.

Pensei também que se chuva é o suficiente para assustar um estrangeiro, porque são necessárias armas para se lutar uma guerra? Uns baldes d’água já não dariam conta do recado?Talvez os bombeiros fossem mais adequados que o exército para defender o país. (Aí está, Geneva, resolvido o problema armamentista mundial. Podem me mandar meu prêmio Nobel agora…).

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